Há uma confusão muito comum entre os brasileiros que sonham com a Espanha: imaginar que a imigração é uma muralha, quando na verdade ela é mais parecida com um edifício cheio de portas. Cada porta — cada tipo de visto — foi pensada para um momento de vida específico, com requisitos próprios e uma lógica por trás. Quem entende esse mapa desde o começo poupa meses de ansiedade; quem tenta empurrar a própria história pela porta errada acaba batendo de frente com a burocracia.
A boa notícia é que esse edifício foi recentemente reorganizado. Desde 20 de maio de 2025 está em vigor o novo Regulamento de Estrangeria da Espanha, aprovado pelo Real Decreto 1155/2024, que modernizou e deu mais clareza aos caminhos de residência. Entender esse marco é o primeiro passo para escolher a sua via com segurança, em vez de depender de informações soltas e desatualizadas que circulam em grupos e vídeos.
Antes de entrar em cada visto, vale conhecer dois números que governam quase todas as exigências econômicas, porque eles vão aparecer o tempo todo. O primeiro é o SMI, o salário mínimo, fixado em 17.094 € por ano em 2026. O segundo é o IPREM, um indicador público de referência usado para calcular requisitos, situado em 600 € por mês.
Sempre que a lei pede que você "comprove meios econômicos", ela costuma traduzir isso em uma porcentagem de um desses indicadores. Por isso damos tanto a porcentagem quanto o valor aproximado em euros: assim a informação continua válida mesmo quando os índices forem atualizados.
Uma última nota, dita com a honestidade que é a marca da Aterriza: tudo o que segue é orientativo. Os valores se atualizam, e cada processo é avaliado individualmente pelo consulado ou pela administração espanhola, que pode pedir documentação adicional conforme o perfil. O objetivo aqui é que você entenda o mapa com profundidade; o seu caso concreto, a gente confirma junto com você.
Tabela comparativa: vistos para morar na Espanha
Antes do detalhe, um panorama de cima, para você localizar rapidamente onde a sua história se encaixa.
| Via / visto |
Para quem é |
Quanto comprovar |
Pode trabalhar? |
Família |
| Nômade digital | Trabalha remoto para fora da Espanha | ~2.849 €/mês · 200% SMI | Sim, remoto | ✔ |
| Não lucrativo | Vive de rendas, sem trabalhar | 28.800 €/ano · 400% IPREM (+7.200 €/familiar) | Não | ✔ |
| Trabalho (conta alheia) | Tem oferta de emprego na Espanha | Salário do contrato | Sim | Depois |
| Estudos | Vai estudar (curso/universidade) | 600 €/mês · 100% IPREM | Sim, até 30 h/sem | ✔ |
| Reagrupação familiar | Familiar de residente legal | 900 €/mês p/ 2 · 150% IPREM (+300 €/membro) | Depende | — |
Base legal: Real Decreto 1155/2024 (em vigor 20/05/2025). SMI 2026: 17.094 €/ano (BOE). IPREM: 600 €/mês. Valores orientativos; confirmam-se no caso concreto.
1. Visto de nômade digital: morar na Espanha sem trocar de emprego
De todos os caminhos abertos nos últimos anos, nenhum mudou tanto o jogo quanto o visto de nômade digital. A lógica por trás dele é simples e inteligente: a Espanha percebeu que existe uma geração inteira de profissionais que ganham em euros, dólares ou reais trabalhando para empresas de fora, e que esses profissionais movimentam a economia local sem disputar uma única vaga com os espanhóis. Em vez de barrar esse perfil, o país resolveu atraí-lo. É um visto que nasce de uma troca vantajosa para os dois lados.
Ele serve para quem trabalha de forma remota para empresas ou clientes situados fora da Espanha, seja como funcionário de uma empresa estrangeira, seja como autônomo com a maior parte da clientela no exterior. O requisito econômico central é comprovar uma renda em torno de 2.849 € por mês (200% do salário mínimo espanhol). Esse patamar não é arbitrário: existe para garantir que você se sustente com folga e não precise recorrer ao sistema público, e sobe um pouco a cada familiar que vier junto, justamente porque uma família consome mais do que uma pessoa sozinha.
Na prática, é a porta predileta de quem atua em tecnologia, marketing, design, consultoria e serviços digitais — gente cujo escritório cabe dentro de um notebook. Vale, porém, um cuidado que muita gente ignora: o visto avalia a natureza e a origem da sua renda, não apenas o valor. Um autônomo que, depois de instalado, passa a faturar majoritariamente de clientes espanhóis pode descaracterizar a própria condição de nômade. Pensar nisso antes de embarcar evita sustos na hora de renovar.
2. Visto não lucrativo: viver de rendas, com tranquilidade
O nome assusta, mas a ideia é límpida. "Não lucrativo" quer dizer que você vem morar na Espanha trazendo o seu próprio sustento — aposentadoria, aluguéis, dividendos, investimentos, poupança — sem precisar trabalhar no país nem tirar nada do mercado de trabalho local. É o caminho clássico de aposentados, rentistas e também de quem decidiu fazer uma pausa na carreira para viver um tempo no Mediterrâneo com os recursos que já construiu.
Como o Estado quer ter certeza de que você não vai depender dele, a exigência econômica aqui é mais alta do que parece: cerca de 28.800 € por ano para o titular (400% do IPREM), somando aproximadamente 7.200 € por ano (100% do IPREM) por cada familiar a cargo. Não é o salário de um mês que se olha, e sim a sua capacidade de manter um padrão de vida estável ao longo de todo o ano, comprovada por extratos, declarações e documentos de renda.
O ponto que mais gera mal-entendido é a contrapartida: este visto não autoriza trabalhar na Espanha, e isso inclui o trabalho remoto formalizado por aqui. Há quem imagine que poderá "pegar uns freelas por fora" depois de instalado — e é exatamente esse tipo de improviso que coloca a renovação em risco. Se a sua intenção é continuar trabalhando, o caminho honesto não é o não lucrativo, e sim o nômade digital ou o de trabalho. Escolher a via certa desde o início é o que separa uma mudança tranquila de uma corrida contra o relógio dois anos depois.
3. Visto de trabalho por conta alheia: quando existe uma oferta de emprego
Este é o caminho mais intuitivo na cabeça das pessoas — "vou para a Espanha trabalhar" — e, paradoxalmente, um dos mais exigentes para quem ainda está no Brasil. A primeira diferença importante é de protagonismo: quem solicita o visto é a empresa que vai contratar você, não você. Sem um empregador disposto a iniciar o trâmite, esta porta simplesmente não se abre.
A segunda diferença está na filosofia da lei, que protege o mercado de trabalho local. Por isso, a contratação de um estrangeiro costuma ser permitida em duas situações: quando a profissão consta do chamado Catálogo de Ocupações de Difícil Cobertura — uma lista publicada pelo serviço público de emprego, o SEPE, com as funções que faltam mão de obra na Espanha — ou quando a empresa consegue demonstrar que não encontrou um profissional local para a vaga.
Some-se a isso a exigência de que o empregador esteja em dia com suas obrigações, e fica claro por que este caminho funciona melhor para perfis muito qualificados ou para setores com escassez real de trabalhadores. O prazo de resposta costuma girar em torno de três meses.
4. Visto de estudos: a porta de entrada subestimada
Muita gente trata o visto de estudos como algo menor, "só para universitários", e comete um erro estratégico. Na realidade, ele é uma das entradas mais acessíveis e flexíveis para a vida espanhola — e o regulamento atual o tornou ainda mais interessante. A exigência econômica é comparativamente suave: cerca de 600 € por mês (100% do IPREM), acrescida de um valor menor por cada familiar que acompanhe o estudante.
A grande virada está na autorização de trabalho embutida: hoje o estudante pode trabalhar até 30 horas por semana, desde que isso seja compatível com o curso. Na prática, isso significa que dá para estudar, ganhar em euros e construir uma rede de contatos profissionais ao mesmo tempo — um trampolim e não um beco sem saída.
Cursos de idiomas, técnicos, graduações e pós-graduações abrem essa porta, e a residência acompanha a duração dos estudos, com possibilidade de renovação. Para quem ainda não tem renda alta nem oferta de emprego, mas quer começar a vida na Espanha de forma legal e com tempo para se organizar, costuma ser o caminho mais inteligente.
5. Reagrupação familiar: quando alguém já abriu o caminho
A reagrupação familiar parte de um princípio humano que a lei reconhece: uma vida nova só está completa quando a família está reunida. Por isso, o residente legal que já se estabeleceu pode trazer os seus. Há, no entanto, uma condição temporal que costuma surpreender: em geral, o reagrupante precisa já ter renovado a sua autorização — ou seja, ter completado o primeiro ano de residência legal — além de dispor de moradia adequada e de meios econômicos suficientes para sustentar quem chega.
Esses meios também se medem em IPREM e crescem com o tamanho da família: parte-se de cerca de 900 € por mês (150% do IPREM) para uma unidade de duas pessoas e soma-se aproximadamente 300 € por mês (50% do IPREM) por cada membro adicional. Podem ser reagrupados o cônjuge ou parceiro registrado, os filhos menores de idade e, em situações específicas, ascendentes a cargo. É o caminho natural, por exemplo, de quem vem primeiro com um visto de trabalho e, depois de firmar o pé, traz a família.
E o "arraigo"? Provavelmente não é o seu caso — e isso é uma boa notícia
Em qualquer pesquisa sobre imigração na Espanha você vai esbarrar na palavra "arraigo", e é importante entender por que ela quase certamente não diz respeito a você. O arraigo é um conjunto de vias de regularização pensadas para pessoas que já estão na Espanha em situação irregular e que, com o tempo, criaram vínculos — de trabalho, de família, sociais ou de formação — que justificam legalizar a sua permanência. É, por definição, uma solução para quem entrou ou ficou fora das regras.
Quem chega do Brasil com um visto na mão está exatamente no extremo oposto: entra legal, organizado e com tudo planejado. Não precisa de arraigo, não passa pela angústia da irregularidade e não fica refém do tempo. É justamente o caminho mais tranquilo, e o único que recomendamos.
Afinal, qual visto é o seu?
Depois de conhecer cada porta, a escolha costuma ficar mais óbvia do que parecia. Se você trabalha remotamente para fora da Espanha, o visto de nômade digital tende a ser o encaixe mais direto. Se já vive de rendas ou está aposentado, o não lucrativo foi desenhado para a sua realidade. Se tem — ou consegue — uma oferta concreta de emprego de uma empresa espanhola, o caminho é o de trabalho por conta alheia.
Se pretende estudar, ainda que seja para ganhar tempo e trabalhar meio período enquanto se organiza, o visto de estudos é um trampolim e tanto. E se a sua família já mora legalmente na Espanha, a reagrupação familiar é a ponte natural até ela.
O que nunca recomendamos é entrar como turista "para ver no que dá": a estadia de turismo permite até 90 dias sem visto, mas nunca foi um caminho para morar — e tentar transformá-la nisso é a origem da maioria das histórias que terminam mal.
O visto é só metade do caminho
Aqui está a verdade que poucos contam, e que pode poupar a você a maior frustração da mudança: ter o visto aprovado não significa, nem de longe, que você vai conseguir alugar uma casa. Recém-chegado, sem holerite espanhol e sem histórico financeiro no país, é comum ouvir um "não" atrás do outro dos proprietários — por mais que você tenha o dinheiro guardado e o visto no passaporte. Conseguir a autorização para morar e conseguir efetivamente um teto são duas batalhas distintas, e a segunda costuma pegar as pessoas de surpresa.
É precisamente nesse ponto que a Aterriza existe. Mais do que orientar a sua via legal, nós trabalhamos para que você desembarque com o aluguel já fechado e os trâmites encaminhados, com o seguro-fiança aprovado e a papelada em ordem antes mesmo de você pôr os pés no avião. Visto e casa, resolvidos lado a lado, para que o seu primeiro dia na Espanha seja de recomeço — e não de fila e porta fechada.
Não sabe qual visto é o seu — nem por onde começar?
Conte o seu caso para a gente. Ajudamos a escolher o caminho legal certo e a chegar com a casa pronta.
Falar com a Aterriza
Perguntas frequentes
Brasileiro precisa de visto para morar na Espanha?+
Para passar uma temporada como turista, não: o brasileiro pode permanecer até 90 dias sem visto. Mas para morar — isto é, residir por mais de 90 dias e construir vida no país — sim, é indispensável um visto ou autorização de residência. Qual deles depende inteiramente do seu perfil: trabalho remoto, rendas próprias, oferta de emprego, estudos ou vínculo familiar com um residente. Tentar morar apenas com a entrada de turista não é um atalho, e sim a porta de entrada para a irregularidade.
Qual é o visto mais fácil para um brasileiro morar na Espanha?+
Não existe um campeão absoluto de facilidade, porque "fácil" depende de quem você é. Para quem trabalha remotamente, o nômade digital costuma ser o caminho mais direto. Para quem vive de rendas, o não lucrativo. E, para quem ainda está construindo renda ou ganhando tempo, o visto de estudos é surpreendentemente acessível, sobretudo porque permite trabalhar até 30 horas semanais. O verdadeiro segredo não é encontrar o visto mais fácil, e sim escolher, desde o primeiro momento, aquele que corresponde de verdade à sua situação.
Quanto dinheiro preciso comprovar para o visto não lucrativo?+
Como referência atual, gira em torno de 28.800 € por ano para o titular — o equivalente a 400% do IPREM — somando cerca de 7.200 € por ano (100% do IPREM) por cada familiar a cargo. Mais importante do que o número exato é entender o que ele representa: a prova de que você consegue se sustentar com estabilidade ao longo de todo o ano, sem depender do sistema público espanhol. Por ser um valor atrelado ao IPREM, ele se atualiza com o tempo, e confirmamos a cifra vigente para o seu caso.
Posso trabalhar na Espanha com visto de estudante?+
Sim, e essa é uma das maiores vantagens dele atualmente. O regulamento em vigor permite que o estudante trabalhe até 30 horas por semana, contanto que a atividade seja compatível com o curso. Na prática, isso transforma o visto de estudos em um verdadeiro trampolim: você se forma ou se especializa, ganha em euros e ainda constrói uma rede de contatos profissionais no país, tudo dentro da legalidade.
O visto de nômade digital permite levar a família?+
Permite. O visto contempla cônjuge ou parceiro e filhos, de modo que a mudança possa ser feita em conjunto, sem deixar ninguém para trás. A contrapartida é econômica: além dos cerca de 2.849 € mensais (200% do SMI) exigidos do titular, é preciso comprovar uma renda adicional por cada familiar, porque uma família, naturalmente, tem um custo de vida maior.
Preciso de uma oferta de emprego para morar legalmente na Espanha?+
Não necessariamente — e essa é uma das maiores confusões que encontramos. A oferta de emprego só é obrigatória para o visto de trabalho por conta alheia. Nos demais caminhos, ela é dispensável: no nômade digital você comprova a sua renda remota, no não lucrativo as suas rendas próprias, e no de estudos a sua matrícula e os meios para se manter. Ou seja, é perfeitamente possível morar legalmente na Espanha sem nunca ter recebido uma proposta de emprego espanhola.
Fontes
Base legal: Real Decreto 1155/2024 — Regulamento de Estrangeria (em vigor 20/05/2025). · Trâmites e requisitos: Ministerio de Inclusión, Seguridad Social y Migraciones. · SMI 2026: BOE — Real Decreto 126/2026 (17.094 €/ano). · IPREM: 600 €/mês.
Valores orientativos, expressos como % do SMI/IPREM; atualizam-se periodicamente. Última atualização: junho de 2026.
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